Histórico de safras indica rendimento acima da tendência em períodos de El Niño, porém chuvas excessivas, falhas na distribuição das precipitações e problemas no solo podem ameaçar o desempenho da cultura em 2026/27.
A possibilidade de influência do El Niño na safra 2026/27 coloca a soja de Mato Grosso do Sul no centro das atenções. O fenômeno climático pode favorecer a disponibilidade de água em determinadas áreas, criando condições positivas para o desenvolvimento das lavouras. Entretanto, os resultados dependerão da distribuição das chuvas, das características de cada região e das decisões de manejo adotadas pelos produtores.
Uma análise de 20 safras, entre 2004/05 e 2024/25, identificou que a produtividade da soja sul-mato-grossense ficou, em média, 3,4% acima da tendência histórica nos períodos sob influência do fenômeno. O dado sugere um potencial favorável, mas não significa que o mesmo comportamento necessariamente se repetirá no próximo ciclo.
A ocorrência de El Niño não garante uma safra mais produtiva. Dependendo da intensidade do fenômeno e das condições locais, o excesso de precipitação, a falta de luminosidade e outros fatores podem prejudicar o desenvolvimento das plantas.
Área de soja deve avançar no estado
As projeções para a temporada 2026/27 apontam crescimento da área cultivada com soja em Mato Grosso do Sul. A expectativa é alcançar aproximadamente 4,87 milhões de hectares, aumento de 5,5% em relação ao ciclo anterior.
A produção estimada é de 15,33 milhões de toneladas, com rendimento médio previsto de 52,4 sacas por hectare.
A ampliação da área reforça a importância da oleaginosa para a economia agrícola estadual. No entanto, transformar essa expansão em uma colheita expressiva dependerá das condições encontradas durante o ciclo produtivo.
A qualidade do plantio, a fertilidade do solo, o desenvolvimento das raízes e a disponibilidade de água serão fatores importantes para determinar o potencial de cada lavoura.
Distribuição das chuvas preocupa no início da semeadura
Mesmo quando existe expectativa de maior disponibilidade hídrica associada ao El Niño, as precipitações podem ocorrer de maneira irregular. Essa diferença exige atenção dos produtores, principalmente durante o estabelecimento inicial das plantas.
Na região Centro-Sul de Mato Grosso do Sul, as chuvas favoreceram o início do desenvolvimento das lavouras, mas também levantaram preocupações com o selamento superficial do solo. Esse fenômeno pode dificultar a infiltração da água e a emergência das plântulas, comprometendo a uniformidade do estande.
No norte do estado, a distribuição irregular das precipitações tem limitado o avanço da semeadura em determinadas áreas.
Para o agricultor, isso significa que a decisão de plantar não deve considerar apenas a previsão de chuva para os próximos dias. A umidade efetiva do solo, as condições de cada talhão e a perspectiva meteorológica precisam ser avaliadas em conjunto.
Uma emergência desuniforme pode resultar em plantas com diferentes estágios de desenvolvimento, dificultando o manejo e reduzindo o aproveitamento do potencial produtivo da área.
Excesso de chuva também ameaça o desempenho da soja
Embora a água seja indispensável para o crescimento da cultura, a ocorrência de precipitações intensas ou prolongadas pode prejudicar as lavouras.
Quando o solo permanece encharcado, a circulação de oxigênio na região das raízes diminui. Essa condição pode comprometer a absorção de nutrientes, limitar o crescimento radicular e prejudicar processos fisiológicos importantes para o desenvolvimento da planta.
O excesso de nebulosidade também merece atenção. Com menos radiação solar disponível, a fotossíntese pode ser prejudicada, afetando o crescimento e, dependendo da fase da cultura e da duração do problema, a formação e a retenção de flores e vagens.
A safra 2023/24 é um exemplo de que o fenômeno climático não determina sozinho o resultado da produção. Naquele ciclo, a produtividade da soja em Mato Grosso do Sul ficou 13,1% abaixo da tendência estimada no levantamento histórico, apesar da influência do El Niño.
O episódio demonstra que o comportamento das chuvas, a ocorrência de extremos meteorológicos e as condições das lavouras podem se sobrepor aos benefícios esperados do fenômeno.
Conservação do solo e manejo adequado ajudam a reduzir riscos
Diante das incertezas climáticas, o planejamento agronômico é essencial para preservar o potencial produtivo da soja.
Entre as estratégias importantes estão a definição adequada da época de semeadura, a manutenção da cobertura do solo e o acompanhamento das condições de umidade ao longo do ciclo.
A palhada e as plantas de cobertura ajudam a proteger a superfície do terreno, reduzir a erosão e favorecer a infiltração da água. Essas práticas também podem contribuir para melhorar a estrutura do solo ao longo do tempo.
Em áreas com histórico de encharcamento, é importante avaliar as condições de drenagem e identificar possíveis limitações físicas que dificultem o escoamento da água.
O manejo nutricional também deve receber atenção. A correção da fertilidade e o fornecimento equilibrado de nutrientes contribuem para o desenvolvimento das plantas, mas precisam ser definidos de acordo com as características do solo e as necessidades da cultura.
Além disso, o monitoramento de pragas e doenças é fundamental. Períodos com elevada umidade e temperaturas favoráveis podem aumentar a pressão de determinados problemas fitossanitários, exigindo acompanhamento técnico e intervenções adequadas.
Acompanhar o desenvolvimento das plantas será fundamental
O resultado da safra depende da resposta da lavoura às condições climáticas durante todas as fases de desenvolvimento. Por isso, o produtor precisa acompanhar o estabelecimento das plantas, o crescimento vegetativo, a floração, a formação das vagens e o enchimento dos grãos.
A identificação antecipada de sinais de estresse permite avaliar possíveis limitações e ajustar as práticas de manejo quando houver alternativas viáveis.
Também é importante evitar a interpretação de condições favoráveis no início da temporada como garantia de uma boa colheita. Mudanças na distribuição das chuvas, temperaturas elevadas e períodos de excesso ou deficiência hídrica podem alterar o desempenho da cultura ao longo dos meses.
O acompanhamento técnico e a análise das condições específicas de cada propriedade ajudam a orientar decisões mais adequadas à realidade da lavoura.
Conclusão
O que o El Niño pode representar para o produtor em 2026/27?
O histórico de Mato Grosso do Sul indica uma associação entre a influência do El Niño e produtividades médias superiores à tendência em determinadas safras. Para o próximo ciclo, porém, o resultado dependerá de como o fenômeno se manifestará e de sua interação com as condições locais.
Com a área cultivada em expansão, os produtores terão o desafio de aproveitar os períodos favoráveis ao desenvolvimento da soja sem ignorar os riscos associados ao excesso de chuva, à irregularidade das precipitações e às limitações do solo.
O planejamento da semeadura, a conservação da estrutura do terreno, o monitoramento climático e o manejo fitossanitário serão componentes importantes da estratégia produtiva.
O El Niño pode criar condições favoráveis para a soja em Mato Grosso do Sul, mas o potencial de produtividade só poderá ser confirmado ao longo da safra. Para o produtor, o diferencial estará em adaptar o manejo às condições reais da lavoura e reduzir os riscos provocados pelas oscilações do clima.
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