Ocorrências em Santa Catarina ampliam a pressão sobre as exportações de produtos avícolas, enquanto autoridades sanitárias buscam conter o vírus e preservar o acesso do Brasil aos mercados internacionais.
A confirmação de casos da doença de Newcastle em Santa Catarina colocou a avicultura brasileira em alerta e levou pelo menos 23 países, além de blocos econômicos, a estabelecer restrições à importação de produtos avícolas nacionais. As medidas variam de acordo com os protocolos sanitários de cada comprador e com a localização das ocorrências identificadas.
O primeiro foco mencionado foi confirmado em 18 de outubro de 2026, em uma granja comercial de perus de corte situada em Nova Itaberaba, no oeste catarinense. Outras ocorrências identificadas posteriormente na região aumentaram a preocupação das autoridades e dos integrantes da cadeia produtiva.
A abrangência das restrições comerciais tornou-se um dos principais pontos de atenção para frigoríficos, exportadores e produtores rurais, uma vez que o alcance dos embargos influencia o escoamento da produção e a manutenção dos contratos internacionais.
Embargos internacionais atingem o setor de diferentes maneiras
As respostas dos mercados compradores não foram uniformes. Enquanto alguns países suspenderam as importações de produtos avícolas de todo o território brasileiro, outros restringiram as compras apenas de Santa Catarina ou das áreas diretamente relacionadas aos focos sanitários.
Entre os países que adotaram restrições nacionais estão Uruguai, México e Malásia. Nesses casos, as medidas podem afetar o comércio de produtos provenientes de diferentes estados brasileiros, conforme as condições estabelecidas por cada autoridade importadora.
China, Chile, Peru, Turquia, Paraguai e Uzbequistão estão entre os mercados que direcionaram suas restrições aos produtos originários de Santa Catarina.
Outros compradores, como Japão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá e Argentina, estabeleceram limitações concentradas nas áreas submetidas a controle sanitário, de acordo com seus respectivos protocolos.
Essa diferenciação é relevante para a indústria avícola brasileira. Quando as restrições ficam limitadas à região afetada, existe a possibilidade de manter parte das exportações provenientes de áreas que atendam aos requisitos sanitários exigidos pelos compradores.
Regionalização sanitária pode reduzir prejuízos nas exportações
Uma das principais estratégias para minimizar os efeitos comerciais de ocorrências localizadas é o reconhecimento da regionalização sanitária pelos países importadores.
Esse mecanismo permite distinguir áreas com registros da doença de outras regiões que permanecem livres da ocorrência, desde que sejam cumpridos os critérios técnicos, os procedimentos de vigilância e as exigências estabelecidas pelos parceiros comerciais.
No Brasil, as negociações conduzidas pelas autoridades agropecuárias e diplomáticas buscam ampliar o reconhecimento dessa diferenciação territorial, evitando que um problema localizado resulte automaticamente em restrições a toda a produção nacional.
Uma estimativa baseada no comércio exterior de 2025 apontou que o reconhecimento da regionalização poderia evitar perdas comerciais potenciais de aproximadamente US$ 954 milhões por ano.
Entre os mercados considerados nesse cálculo, a China representava cerca de US$ 485 milhões, a Arábia Saudita aproximadamente US$ 293 milhões e a Argentina em torno de US$ 57 milhões.
Os valores demonstram a importância econômica da regionalização para a cadeia avícola. Entretanto, a manutenção do acesso a cada mercado depende do cumprimento dos protocolos sanitários e da aceitação das medidas brasileiras pelas autoridades importadoras.
Santa Catarina reforça a vigilância e o controle sanitário
Após a confirmação inicial, foi declarada emergência zoossanitária por 60 dias nos municípios catarinenses de Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim.
As medidas de resposta incluem investigações epidemiológicas, intensificação da vigilância e ações destinadas a conter a circulação do agente causador da doença.
O objetivo é identificar possíveis vínculos entre as ocorrências, acompanhar a situação das propriedades envolvidas e impedir que o problema alcance outras áreas produtoras.
A rapidez na identificação de suspeitas e no cumprimento dos protocolos de controle é fundamental para reduzir os riscos de disseminação e demonstrar aos mercados internacionais que o país mantém capacidade de resposta sanitária.
Paralelamente, as autoridades brasileiras procuram manter o intercâmbio de informações com os parceiros comerciais, buscando demonstrar a evolução das medidas adotadas e criar condições para a revisão das restrições quando houver respaldo técnico.
O que a doença de Newcastle representa para a avicultura?
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral que afeta aves e pode provocar consequências sanitárias e econômicas importantes, dependendo da virulência da cepa e das condições de ocorrência.
Em criações comerciais, a doença pode comprometer a saúde dos animais, elevar a mortalidade e causar prejuízos à produção. A ocorrência também pode gerar consequências comerciais, mesmo quando os efeitos diretos sobre a produção ficam concentrados em determinadas propriedades.
Por esse motivo, a biosseguridade desempenha um papel central na prevenção. O controle de acesso às granjas, a higienização de instalações e equipamentos, o monitoramento dos plantéis e o cumprimento das orientações veterinárias são medidas essenciais para reduzir os riscos sanitários.
Produtores que observarem sinais incomuns nas aves devem procurar orientação veterinária e comunicar suspeitas aos serviços oficiais de defesa sanitária animal, seguindo os procedimentos aplicáveis.
Exportadores e produtores enfrentam desafios comerciais
As restrições internacionais podem alterar o planejamento das agroindústrias e dos exportadores, principalmente quando atingem mercados de grande importância para a comercialização brasileira.
Entre os possíveis efeitos estão a necessidade de redirecionar cargas, renegociar contratos, ajustar cronogramas de embarque e buscar compradores alternativos.
A duração dos embargos também influencia os custos logísticos e a organização da produção. Quanto maior o período de restrição, maior pode ser a necessidade de reorganizar os destinos comerciais e administrar a disponibilidade de produtos.
Para os produtores integrados e independentes, os impactos podem ocorrer de formas diferentes, dependendo dos contratos, das condições de compra dos frigoríficos e da evolução da demanda interna e externa.
A preservação do acesso aos mercados internacionais é, portanto, uma questão estratégica para toda a cadeia avícola, que depende da confiança dos compradores na qualidade e na segurança sanitária dos produtos brasileiros.
Conclusão
Controle dos focos será decisivo para recuperar mercados
O avanço das medidas sanitárias e das negociações internacionais será determinante para avaliar a duração e a abrangência dos embargos relacionados à doença de Newcastle.
A regionalização sanitária pode ajudar a proteger as exportações provenientes de áreas não afetadas, mas sua aplicação depende do reconhecimento dos parceiros comerciais e da comprovação de que os requisitos exigidos estão sendo cumpridos.
Para o setor avícola, os próximos passos envolvem fortalecer a vigilância, manter a biosseguridade nas granjas e acompanhar as decisões dos mercados compradores.
O principal desafio é conter a disseminação da doença e evitar que ocorrências localizadas comprometam a competitividade da avicultura brasileira, a renda dos produtores e a presença do país no comércio internacional de produtos avícolas.
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